domingo, 31 de julho de 2016

Questão de peito


Já faz tempo, muito tempo, que queria escrever sobre isso, mas a rotina acaba nos engolindo e o assunto foi ficando para trás. Então, aproveitando o início da Semana Mundial da Amamentação, que vai de 1 a 7 de agosto, resolvi falar mais uma vez sobre amamentação (já falei sobre a minha experiência aquiaqui).

Todos já sabem, todos os veículos de comunicação falam, mas não custa relembrar... que o leite materno é o alimento mais adequado para os nossos bebês e o aleitamento materno exclusivo deve ser incentivado e mantido até o 6º mês de idade, quando inicia-se a alimentação complementar. Idealmente, o aleitamento deve ser mantido até os 2 anos de idade. Existem situações clínicas que contra-indicam o aleitamento materno, mas felizmente são poucas e, nesses casos, o pediatra que acompanha a criança deverá indicar a fórmula mais adequada para sua alimentação.

Amamentar cansa? Cansa. E dói. Tem noites que a gente se sente péssima, moída, parecendo que uma carreta passou por cima do nosso corpinho, porque o bebê mamou de hora em hora e ainda continua chorando. E porque tudo isso acontece?


1) Bebê não mama só porque tem fome. Mama porque tem sede, fome, frio, mama porque quer a mamãe. Ao ser aconchegado ao seio materno, o bebê ouve os sons que lhe são familiares, sente o cheirinho da mamãe, o calorzinho do abraço e a segurança que tinha antes, intra-útero.

2) Dependendo da via de nascimento, a apojadura (a descida do leite) pode ocorrer até 72 horas depois do parto (em cesárias, por exemplo). Então o bebê vai sugar bastante para mamar o colostro e provocar a descida do leite através do estímulo da sucção.

3) Situações de stress (emocional ou dor) fazem com que o leite diminua temporariamente.

4) Existem os chamados "picos de crescimento", nos quais o bebê cresce, mas a produção de leite não acompanha o crescimento súbito - o que não quer dizer que é hora de entrar com a mamadeira - então o bebê vai mamar, mamar, até que a mamãe volte a produzir o suficiente para ele. Isso costuma durar aproximadamente 1 semana, depois tudo volta ao normal.

5) Aí agora tem um tal de "salto de desenvolvimento", ou os Wonder Weeks, quando o bebê atinge um grau de cognição que não tinha antes (aquele dia em que descobre que rolar é legal, por exemplo) e, devido à mudanças e adaptações neurológicas, pode ficar agitado, irritado e... querer mamar, mamar e mamar. Também dura aproximadamente 1 semana.

6) Só que nunca te avisaram que esses tais números 4 e 5 podem acontecer AO MESMO TEMPO, woohoo!

Para completar, ainda tem aquela hora em que você olha pras suas mamas e vê que elas não enchem mais como antes... bate aquele desespero...

Porém, temos que sempre lembrar que mais da metade do leite que o bebê mama não é o estocado nas mamas, mas sim, o que é produzido na hora, enquanto ele está sugando. Sim, é "on demand" mesmo, por isso dá aquela impressão estranha de que o peito está murcho, mas ainda tem leite.

Não podemos nos esquecer também das diferenças entre o leite anterior (início da mamada) e o leite posterior. O anterior é rico em água, vitaminas hidrossolúveis, fatores de proteção (células do sistema imunológico, anticorpos) e lactose (o açúcar do leite). O posterior é rico em proteínas e gorduras. Muitas vezes, o bebê quer só matar a sede, então suga um pouquinho e solta (se está em aleitamento em livre demanda). Se isso acontecer, na próxima mamada, retorne à mesma mama, para que ele consiga pegar o leite posterior que deixou sobrar.

É claro que chega aquela hora em que muitas mães pensam em desmamar, e por motivos diversos. Se isso ocorrer por dúvidas e questionamentos de terceiros (cof - pitacos - cof), recomendo procurar os serviços de uma boa consultora de amamentação, que vá até a sua casa e possa observar a sua rotina. Costumo falar para as mães no meu consultório, que apoiarei e defenderei suas decisões, desde que sejam tomadas conscientemente, com a orientação técnica apropriada. Se for por decisão de terceiros, aí defenderei até o fim o aleitamento materno.

Isso costuma acontecer bastante após o 6º mês de vida da criança. Muitas mães estão exaustas, exauridas e com a sensação de dever cumprido. Claro, explico, oriento, converso, mas se a decisão irredutível for pelo desmame, prescrevo a fórmula e oriento a introdução alimentar complementar. Outra situação em que opto pelo desmame é em alergias alimentares nas quais a mãe não tem condições físicas e emocionais para continuar amamentando em livre demanda e fazendo dieta restritiva.

Quando a amamentação é mantida após a introdução alimentar e não há nenhuma intercorrência, costumo recomendar o desmame gradual, que pode acontecer a qualquer momento, sem traumas, sem stress para ambas as partes. Aqui em casa, ele aconteceu quando a Fofinha estava com 2 anos e 4 meses, 1 mês após a aquisição da tolerância à proteína do leite de vaca.


Eu poderia continuar aqui, enumerando as muitas e maravilhosas vantagens do leite materno, mas isso ainda será amplamente divulgado durante essa semana que começa amanhã.

O que eu queria dizer e reforçar é que: amamentar não é fácil, mas pode ser maravilhoso ou não - depende muito da maneira que encaramos a amamentação. Eu gostaria que todas as mães tivessem a experiência que eu tive (na segunda filha - na primeira fui pra mamadeira com 1 mês!) e se sentissem bem ao amamentar. Como sei que pode não ser possível, o que quero é deixar meu apoio incondicional ao aleitamento materno... e o consolo quando as coisas não acontecem como planejado.

E um beijão pra vocês, da época da "patrulha da madrugada", quando ela acordava para mamar às... ahn... 3 da matina e ficava toda feliz fazendo "abuuu".


quarta-feira, 20 de julho de 2016

... e hoje, tudo voltou ao normal

Demorei para voltar a tocar nesse assunto porque queria ter certeza de que a vida iria prosseguir normalmente.

Quem acompanha o blog deve lembrar que, aos 4 meses de vida (depois da viagem à praia), a Fofinha foi diagnosticada com Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV) e depois com a Síndrome Látex-frutas, ficando como uma criança com Alergia Alimentar Múltipla, cheia de restrições para a mamãe e para a bebê. 

Não foi fácil. Tivemos que aprender a lidar com muitas coisas, como o raio do controle de traços (que pouca gente sabe que é necessário - inclusive profissionais da saúde - e pouca gente sabe como fazer adequadamente), aprendemos a ler rótulos e a ligar incansavelmente para os SAC dos produtos, incluindo medicamentos, passamos por períodos de perda de peso, diarréias sem fim, assaduras intermináveis, recusa alimentar, bronquiolite (5 dias de internação), pneumonia (1 mês depois da bronquiolite), 7 meses para ganhar um mísero quilo de peso, queda na curva de estatura, recusa da fórmula de aminoácidos livres... para então a mamãe pedir exoneração da Prefeitura de Paulínia para ficar exclusivamente amamentando a bebê e tirando-a da escolinha.

Muitas mães hoje, que acompanho no consultório, ficam desesperadas porque a criança não estabiliza de jeito nenhum. Parando para lembrar da minha história, eu também ficava. 7 meses para ganhar um quilo de peso. 7 meses. As comidas próprias para alérgicos, caríssimas ou impossíveis de serem encontradas na minha cidade. Viajei para São Paulo para comprar pão e bolo. Aprendi a cozinhar, fui em várias festas infantis levando marmita. Ouvi a palavra "coitadinha" mais de uma vez no mesmo dia, se referindo tanto a mim como à minha filha.

Coitadinha, não, olha como eu papo direitinho.

Porém, enfim, o tempo foi passando, os escapes foram se tornando menos frequentes... o peso foi melhorando... fomos reintroduzindo as frutas e legumes aos poucos... até que, em dezembro de 2015, 1 ano e 10 meses após o diagnóstico, fizemos a reintrodução da soja. E ela tolerou via leite materno. O próximo passo foi, apesar da negativa da pneumopediatra que nos acompanha até hoje (com muita paciência, porque me ter como mãe de paciente não deve ser fácil), introduzir a fórmula de soja. Fomos de Aptamil Soja 2, que foi bem tolerado pela Fofinha... que passou a tomar seu leitinho feliz. 2 copos de fórmula por dia e comendo mais coisas, voltou a engordar bem (e mamando leite materno também).

Janeiro chegou, tentamos introduzir leite de vaca... fuém fuém... para tudo, volta pra soja...

Fevereiro tentamos de novo. Como ainda mamava leite materno, comecei comendo traços de leite, para depois prosseguir para alimentos assados com leite, depois ofereci um bolo feito com leite pra Fofinha...

... fuém fuém, deu diarréia! Só que deu febre também! Ou seja... VIROSEEEEEE! Para tudo de novo, espera melhorar, 15 dias depois tentei de novo. Comeu bem o bolo, nada de reações... 1 semana depois, iogurte. Também nada... 2 semanas depois, Milnutri. Tomou, não reagiu, mantive o Milnutri na escola e em casa, liberei a alimentação, o bichinho começou a comer feito uma draga. Mas ganhei uma amostra de Enfagrow e resolvi tentar. 

Hoje ela toma seu Enfagrow de 2 a 3 vezes no dia, come de tudo (de tudo mesmo, o que der, traça), podemos viajar tranquilamente sem nos preocupar com restrições alimentares (mas o olho fica acostumado, acabo sempre observando para ver como o local acomoda os hóspedes com alguma restrição) e vamos às festas sem marmita.

(mas, como a vida não pode ser 100% perfeita, ainda temos a tal da alergia respiratória pairando na casa)
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